A SIMPLIFICAÇÃO DA VIDA Parte II

Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior. As distrações exteriores dos nossos interesses refletem a falta interior de integração das nossas vidas. Queremos ser vários egos ao mesmo tempo, sem que todos esses egos estejam organizados por uma única e soberana Vida dentro de nós. Todos nós temos a tendência de ser, não um único ego, mas todo um comitê de egos. Há o ego cívico, o ego paterno, o ego financeiro, o ego religioso, o ego profissional, e ego literário. E cada um desses egos, por sua vez é um franco individualista, não cooperando, mas votando aos berros em si mesmo quando chega a hora da votação. Muitas vezes seguimos o método eleitoral para chegar a uma rápida decisão entre as nossas vozes interiores conflitantes.
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É como se tivéssemos um presidente do comitê, que não integra os muitos egos, mas apenas conta os votos e deixa minorias descontentes. As reclamações de cada ego deixam de ser feitas. Se aceitamos servir na comissão de uma obra social, continuamos sentir remorso por não podermos também ensinar na Igreja. Não somos integrados: somos angustiados. Sentimos o clamor de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E, no entanto, somos infelizes, receosos, tensos e oprimidos, com medo de sermos superficiais. Pois, desde além das margens da vida vem um sussurro, um apelo indistinto, um presságio de uma vida rica que estamos deixando escapar. Contorcidos pelo ritmo louco dos nossos afazeres, somos ainda por cima incomodados por uma inquietação interior, pois não deixamos de receber intimações da existência de um estilo de vida muito mais rico e profundo do que toda nossa pressa, uma vida de serenidade, paz e poder. Ah! Se pudéssemos descobrir o silêncio que é a fonte do som! Conhecermos algumas pessoas que parecem ter descoberto esse Centro profundo, onde os clamores insistentes da vida são integrados, onde o “não”, tanto quanto o “sim” podem ser ditos com confiança.

Já vimos vidas assim, integradas, tranqüilas no meio de decisões difíceis, vida alegres, vigorosas, positivas. Não são pessoas preguiçosas ou vadias, nem obviamente absortas em profundas meditações; estão carregando um fardo tão pesado quanto o nosso, mas com um passo leve, sem abatimento nem irritação. Sua vida cotidiana é cercada por uma auréola de infinita paz, poder e júbilo. Nós somos tão tensos e inquietos; eles tão equilibrados e em paz.

Se a sociedade de Amigos (os Quakers) tem algo a dizer, é principalmente nesta área. A vida deve ser vivida a partir de um Centro, o Centro Divino. Cada um de nós é capaz de viver uma vida de estupendo poder e paz e serenidade, de integração e confiança e multiplicidade simplificada sob uma condição: que realmente queiramos isto. Há em todos nós um abismo divino, cum Centro infinito, um coração, uma Vida que fala em nós e através de nós para o mundo. Todos já ouvimos este sussurro Santo. As vezes, seguimos o sussurro, e produz-se em nós um espantoso equilíbrio de vida, uma estupenda eficácia. Mas muitos de nós atendemos a esta voz apenas esporadicamente. Só de vez em quando submetemo-nos à sua santa orientação. Não temos considerado esta coisa santa em nós como a coisa mais preciosa do mundo. Não temos aberto mão de tudo mais, para atendermos a ela somente. Repito: a maioria de nós não tem abandonado todas as outras coisas para poder atender ao Santo que está em nós.
Continua na semana que vem.

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