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O Cheiro do Ralo
O Cheiro do Ralo, que traz Selton Mello no papel de um personagem bizarro, é o nome do novo filme do mesmo diretor de Nina.
Infelizmente, devido possivelmente ao baixo orçamento, o filme conta apenas com 15 cópias para serem distribuídas por todo o país. E se digo infelizmente é porque trata-se de um grande filme a que muitos estarão privados até que, eventualmente, ele seja lançado em vídeo. Mas, por outro lado, não se trata também de um filme para multidões. Afinal de contas, o personagem principal tem tudo para parecer antipático. Sórdido, egoísta, egocêntrico e bizarro, o personagem central teria tudo para despertar a antipatia do público. Entretanto, durante a maior parte do filme, o que se ouve são boas risadas. Fruto de uma história bizarra, de uma cenografia atemporal, de uma boa trilha musical, e de uma interessante combinação entre tragédia e humor surge um filme essencialmente original. O enredo mostra o processo de enlouquecimento de alguém que, para se estabelecer profissionalmente, teve que se tornar insensível. E como, diria um pensador russo, a insensibilidade é algo que, para fazer parte do ser humano, requer muita prática. O personagem do filme a praticou e agora esse hábito parece ter se tornado numa segunda natureza, isto é, em algo que o modelou a sua maneira de pensar e de sentir. Acostumado, portanto, a comprar tudo aquilo que o satisfaz, ele não consegue mais se relacionar se não for dessa forma. Tudo, pra ele, tem que ser comprado a um valor que depois, a sua venda, lhe seja revertida em lucro. Entretanto, paradoxalmente, essas cenas de avareza total são contrapostas a episódios no qual ele esbanja dinheiro com artefatos aparentemente inúteis e sem valor que, no entanto, lhe servem para preencher o vazio criado, talvez, por esta própria racionalidade cuja rigidez o conduz a momentos de desvario e a um processo de enlouquecimento original. O enredo tem tudo para ser uma narrativa dramática e chocante. No entanto, o resultado foi uma obra de humor refinado. Mais do que isso, diria também que ele é a alegoria de um processo comum no qual as vezes entramos: praticantes de uma racionalidade e uma avareza diária, intercalada por um esbanjamento com coisas caras que nos entretem em finais de semana. Jean Carlo Faustino – Sociologia / Unicamp Related posts: |
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