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Moska na sua sopa“… não sou apaixonado pelo popular. Porque esse popular dá a entender que essa música deva ser feita para agradar ao povo. Essa palavra sugere que você entre num esquema, num padrão de canção de letras de fácil acesso, e que continue mantendo aquilo que não pode permanecer, que é justamente a relação do povo com a arte. A arte não é permanência nunca. E hoje em dia há uma confusão. As pessoas acham que fazer arte é dar o que elas esperam, e, na minha opinião, elas esperam muito pouco.”
Uma entrevista do cantor Paulinho Moska, feito pela jornalista Patrícia Palumbo, retirado do livro “Vozes do Brasil”
Vamos começar falando da sua vontade de conceituar novamente a MPB, a música popular brasileira. Nessa sigla, o meu grande problema é a palavra “popular”. É um problema mais matemático, e o meu problema com a matemática é uma grande paixão. Eu só interfiro naquilo por que me apaixono, entende? Sou apaixonado por música, sou apaixonado pelo Brasil, não sou apaixonado pelo popular. Porque esse popular dá a entender que essa música deva ser feita para agradar ao povo. Essa palavra sugere que você entre num esquema, num padrão de canção de letras de fácil acesso, e que continue mantendo aquilo que não pode permanecer, que é justamente a relação do povo com a arte. A arte não é permanência nunca. E hoje em dia há uma confusão. As pessoas acham que fazer arte é dar o que elas esperam, e, na minha opinião, elas esperam muito pouco.
Como você vê a riqueza da música brasileira, a diversidade que segue na direção contrária à massificação? O público não tem esse leque de opções e, por isso, acaba consumindo aquela mesma coisa. Os meios de comunicação se alimentam disso e se justificam dizendo que estão vendendo aquilo que o povo gosta. Alegam isso para não tocar outras músicas, não divulgar trabalhos que não são imediatamente vendáveis. Isso é um grande erro, porque cada artista, cada obra de arte, forma um povo. Uma obra de arte é uma proposta estética e ética. Uma verdadeira obra de arte é aquela que não está presa a esses padrões de permanência. Quando alguém propõe uma coisa diferente, ela é assimilada por esse mesmo povo que é chamado de ignorante.
E é aí que entra o seu conceito da máscara? Exatamente, vamos “deleuziar” agora. Em certo momento da minha vida, por intuição, eu soube que tinha que sofisticar a minha música. Foi quando tive a oportunidade e a sorte de participar de um grupo de estudo sobre Gilles Deleuze, um filósofo francês. 0 grupo era coordenado por Cláudio Ulpiano que, mais do que filosofia, me ensinou a pensar.
Em que momento da sua carreira isso aconteceu? Foi entre o Vontade e o Pensar é fazer música. Bom, deixei o Inimigos do Rei e gravei um disco de rock, porque naquele momento era o melhor veículo para o meu grito. Na época, estava surgindo o Nirvana, e ouvi nesse movimento de Seattle um grito estético que havia muito tempo o rock não soltava.
Você precisava dessa atitude para se posicionar? Eu precisava de uma atitude para sair e dizer: “A minha relação com a música não é só de ser engraçado e de fazer o que fiz até agora’. Utilize rock com muita felicidade, era o que eu queria fazer na época. Mas depois comecei a ver meu nome ser atrelado à palavra “roqueiro”, e isso me incomodou muito. Eu havia saído do Inimigos para deixar de ser o irreverente, o engraçadinho, mas tinha recebido outro rótulo. Então. desde a divulgação do Vontade, já comecei a dizer que não era roqueiro. que era músico, compositor, artista, e que não queria rótulos. E só agora, depois de cinco discos, é que isso foi realmente assimilado. As entrevistas agora começam assim: “Ah, você realmente é um camaleão!” Fico muito orgulhoso porque foi essa foi uma briga que realmente comprei. 0 Pensar é fazer música, que é um disco posterior ao grupo de estudos de filosofia, é obviamente sobre filosofia e autoconhecimento.
0 cd fecha com essa vinheta “Pensar é fazer música”… É, tem essa vinheta no final, e as fotos são inspiradas nos auto-retratos do Egon Schiele. As canções são todas de autoquestionamento: falam sobre as questões do tempo, do espaço, do eu, da essência. Tem a música “Camaleão” e outra chamada “Último dia”, que talvez seja a canção que mostra, de forma mais banal, a minha proposta. Ninguém passou incólume por essa letra.
É verdade. É impossível não perguntar a si mesmo: “E se só me restasse este dia?” Na verdade, esse talvez seja o grande motivo pelo qual escrevo, o famoso “e eu?” Acho que o meu maior prêmio é ler os e-mails que me mandam e perceber neles que as pessoas perguntaram a si mesmo: “E eu?” Esse cara entrou na viagem que eu propus. Porque a minha estética de letras e de música não é uma estética pop star. Não estou numa posição melhor, não estou dizendo: “Venham atrás de mim”. O meu maior motivo é fazer que as pessoas passem por uma transformação. Então, quando alguém escuta uma música e depois me escreve dizendo que aquilo o fez pensar, esse é meu maior orgulho.
É o sucesso para você? Isso é o sucesso. Saber que uma, duas, três pessoas perceberam na sua música um ingrediente para fazer um prato novo. Os temperos são os mesmos, mas a gente pode misturá-los de maneira diferente e mudar sua imagem da vida, sua relação com o mundo, sua própria imagem o tempo inteiro. Sou extremamente obsessivo com essa idéia, e talvez isso me force a mudar sempre. Estou mudando de cara, as pessoas me falam: “Pó, você mudou de novo?” Eu respondo: “Mudei para continuar a ser o mesmo!” Related posts: |
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