Hermana Duda – Jorge Drexler

Não tenho a quem rezar, pedindo luz
Ando apalpando o espaço às cegas
Não me interpretem mal
Não estou me queixando
Sou jardineiro dos meus dilemas…

Mas esta noite, irmã dúvida,
Irmã dúvida, da-me um respiro…

Graça… um fenômeno comum? Parte 1

O que se segue demonstrará que a graça é um fenômeno comum e, até certo ponto, previsível. No entanto, dentro da estrutura conceitual da ciência convencional e da “lei natural”, a realidade da graça continuará a ser inexplicável. Permanecerá miraculosa e surpreendente.
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Saúde Mental
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Há vários aspectos da prática da psiquiatria que nunca param de me surpreender, assim como a muitos outros psiquiatras. Um deles é o fato de que nossos pacientes são surpreendentemente saudáveis mentalmente. …o que não sabemos é por que a neurose não é mais grave – por que um paciente ligeiramente neurótico não é gravemente neurótico, ou por que um paciente gravemente neurótico não é totalmente psicótico. Inevitavelmente encontramos um paciente que sofreu determinados traumas que produziram uma neurose, mas esses traumas são tão intensos que, no curso normal das coisas, a neurose deveria ser mais grave.
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Um bem-sucedido homem de negócios de 35 anos procurou me devido a uma neurose que só poderia ser descrita como leve. Ele era filho ilegítimo e, no início da infância, foi criado apenas pela mãe, surda-muda, nas favelas de Chicago. Quando tinha cinco anos, o Estado, acreditando que sua mãe não teria competência para criá-lo, tirou-o dela sem aviso ou explicações, colocando-o em uma sucessão de três lares adotivos, onde foi rotineiramente tratado de modo indigno e com uma total falta de atenção. Aos quinze anos, ficou parcialmente paralítico devido à ruptura de um aneurisma congênito em um dos vasos sangüíneos do cérebro. Aos dezesseis, deixou seus últimos pais adotivos e começou a viversozinho. Aos dezessete, previsivelmente, foi preso por um assalto particularmente cruel e sem motivo. Não recebeu nenhum tratamento psicológico na prisão.
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Ao ser liberado, após seis meses de tedioso confinemento, as autoridades lhe arranjaram um emprego como funcionário subalterno em uma empresa bastante comum. Nenhum psiquiatra ou assistente social no mundo teria previsto algo de bom para seu futuro. Contudo, em três anos, tornou-se o mais jovem chefe de departamento na história da empresa. Em cinco anos, depois de se casar com outra executiva, deixou o emprego, abriu seu próprio negócio e teve sucesso, tornando-se um homem relativamente rico. Quando começou a se tratar comigo, tornara-se, além disso, um pai amoroso e eficaz, um intelectual autodidata, um líder comunitário e um perfeito artista. Como, quando, por que e onde isso tudo aconteceu? Dentro dos conceitos comuns de causalidade, não sei. Juntos pudemos traçar com exatidão, dentro da estrutura usual de causa e efeito, os determinantes de sua leve neurose, e curá-lo. Mas não conseguimos nem de longe determinar as origens do seu sucesso imprevisível.
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Esse caso foi citado exatamente pela dramaticidade dos seus traumas observáveis e pela obviedade das circunstâncias do seu sucesso. Na grande maioria dos casos, os traumas da infância são bem mais sutis (embora em geral igualmente devastadores) e a evidência da saúde menos simples, mas o padrão é basicamente o mesmo. Por exemplo, é raro vermos pacientes que não sejam mais saudáveis mentalmente do que seus pais. Sabemos muito bem por que as pessoas têm desordens mentais. O que não sabemos é por que elas sobrevivem tão bem aos traumas de suas vidas. Sabemos exatamente por que algumas delas cometem suicídio. O que não sabemos, dentro dos conceitos comuns de causalidade, é por que outras não. Tudo que podemos dizer é que há uma força, cujo mecanismo não entendemos totalmente, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde mental, mesmo sob as condições mais adversas.
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Saúde Física
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Sabemos muito mais sobre as causas das doenças físicas do que sobre as da saúde física. Por exemplo, pergunte a qualquer médico o que causa a meningite meningocócica e a resposta imediata será: “O meningococo, é claro.” Contudo, há um problema. Se neste inverno eu coletasse material diariamente nas gargantas dos habitantes do vilarejo onde moro, descobriria que essa bactéria está presente em aproximadamente nove entre dez deles. Mas há muitos anos não é registrado nenhum caso de meningite meningocócica aqui, e provavelmente não haverá nenhum neste inverno. O que está acontecendo? A meningite meningocócica é uma doença relativamente rara, mas seu agente causador é bastante comum. Os médicos usam o conceito de resistência para explicar esse fenômeno, afirmando que o corpo possui uma série de defesas que impedem a invasão de suas cavidades pelo meningococo, assim como por vários outros organismos nocivos onipresentes. Sem dúvida isso é verdade; de fato sabemos muito sobre essas defesas e de como elas operam. Mas grandes questões continuam sem resposta. Enquanto algumas das pessoas deste país que morrerão de meningite meningocócica neste inverno estarão debilitadas ou terão uma história de baixa resistência, a maioria delas será de indivíduos anteriormente saudáveis sem deficiências conhecidas em seu sistemas imunológicos. Em certo nível, poderemos dizer com certeza que o meningococo foi a causa da sua morte, mas isto é claramente superficial. Em um nível mais profundo, não saberemos por que morreram. O máximo que poderemos dizer é que as forças que costumam proteger nossas vidas por alguma razão deixaram de operar nelas.
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Embora o conceito de resistência comumente seja aplicado às doenças infecciosas, como a meningite, de certo modo também pode ser aplicado a todas as doenças físicas; entretanto, no caso das doenças não-infecciosas, não sabemos quase nada sobre como a resistência funciona. Um indivíduo pode sofrer um único ataque relativamente leve de colite ulcerativa – uma desordem geralmente considerada psicossomática -, recuperar-se totalmente e nunca mais ter esse problema na vida. Outro pode sofrer repetidos ataques e se tornar cronicamente inválido devido à doença. Um terceiro pode manifestar a doença repentinamente e morrer do primeiro ataque. A moléstia parece ser a mesma, mas o resultado é totalmente diferente. Por quê? Não sabemos. Só podemos dizer que indivíduos com um certo padrão de personalidade parecem ter diferentes tipos de dificuldades para resistir à desordem, enquanto a grande maioria de nós não tem dificuldade alguma. Como isso pode acontecer? Também não sabemos. Essas perguntas podem ser feitas sobre quase todas as doenças, inclusive as mais comuns, como ataques cardíacos, derrames, cânceres, úlceras pépticas e outras. Um número crescente de pensadores está começando a sugerir que quase todas as desordens são psicossomáticas – que a psique está de algum modo envolvida nas várias falhas do sistema imunológico. Mas o fato surpreendente não é que o sistema imunológico falhe, mas sim que ele funcione tão bem. No curso normal das coisas deveríamos ser devorados vivos pelas bactérias, consumidos pelo câncer, entupidos por gorduras e coágulos, corroídos por ácidos. Adoecer e morrer não é surpresa; o que é realmente digno de nota é que em geral não adoecemos com muita freqüência e demoramos a morrer. Portanto, podemos dizer sobre as desordens físicas o mesmo que dissemos sobre as desordens mentais. Há uma força, cujo mecanismo não entendemos bem, que parece operar rotineiramente na maioria das pessoas protegendo-as e cuidando da sua saúde física, mesmo sob as condições mais adversas.
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Saude em acidentes?
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A questão dos acidentes levanta questionamentos ainda mais interessantes. Muitos médicos e a maioria dos psiquiatras tiveram a experiência de encarar o fenômeno da tendência a acidentes. Entre os muitos exemplos em minha carreira o mais dramático foi o de um garoto de quatorze anos que fui ver como parte de sua admissão em um centro de tratamento residencial para jovens delinqüentes. Sua mãe morrera em novembro do seu oitavo ano. Em novembro do seu nono ano, ele caiu de uma escada e fraturou o úmero (braço). Em novembro do seu décimo ano, acidentou-se em uma bicicleta e teve uma fratura de crânio e uma concussão grave. Em novembro do seu décimo primeiro ano, caiu de uma clarabóia e fraturou o quadril. Em novembro do seu décimo segundo ano, caiu do skate e fraturou o pulso. Em novembro do seu décimo terceiro ano, foi atropelado por um carro e fraturou a bacia. Ninguém duvidaria de que ele realmente tinha uma tendência a acidentes, nem das razões disso. Mas como os acidentes aconteciam? O garoto não se machucava propositadamente. Tampouco tinha consciência da sua tristeza pela morte da mãe. Ele me disse calmamente que “se esquecera totalmente dela”. Para começar a entender como esses acidentes aconteciam, acho que precisamos aplicar o conceito de resistência ao fenômeno dos acidentes, assim como ao fenômeno da doença – pensar em termos de resistência a acidentes assim como em tendência a acidentes. Não é que certas pessoas em determinados momentos de suas vidas simplesmente tendam a se acidentar; ocorre também que, normalmente, a maioria de nós tem resistência a acidentes.
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Em um dia de inverno, quando eu tinha nove anos e carrega, vã meus livros escolares por uma rua cheia de neve, escorreguei e caí. Um carro que se aproximava rapidamente freou e parou. Minha cabeça ficou na mesma altura dos pára-lamas dianteiros, e meti corpo embaixo do carro. Saí de baixo do carro e corri para casa em pânico, mas ileso. Esse acidente em si não parece tão notável; pode-se simplesmente dizer que tive sorte. Mas consideremos todas as vezes em que por pouco não fui atingido por carros enquanto caminhava, andava de bicicleta ou dirigia; as vezes em que, na direção de um carro, quase atropelei pedestres ou ciclistas no escuro; nos momentos em que pisei no freio e parei a centímetros de outro veículo; quando, ao esquiar, por um triz não bati em árvores; as vezes em que quase despenquei de janelas ou quando um bastão de golfe quase acertou minha cabeça, e assim por diante. O que é isso? Será que levo uma “vida encantada”? Se os leitores examinarem suas próprias vidas, creio que a maioria acabará descobrindo que o número de acidentes que quase aconteceram com eles é maior do que o dos que realmente aconteceram. Além disso, acredito que os leitores reconhecerão que seus padrões de sobrevivência – de resistência a acidentes – não resultam de um processo decisório consciente. Será que a maioria de nós leva “vidas encantadas”? Será verdade o verso da canção “Foi a graça que me trouxe em segurança até aqui”?
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Alguns podem achar que não ha nada de excitante nisso tudo, que todas as coisas sobre as quais estivemos falando são apenas manifestações do instinto de sobrevivência. Mas dar nome a alguma coisa explica o que ela é? O faio de termos um instinto de sobrevivência parece banal porque nós o chamamos de instinto? Nosso entendimento das origens e dos mecanismos instintivos é, na melhor das hipóteses, minúsculo. Na verdade, a questão dos acidentes sugere que nossa tendência a sobreviver pode ser algo além e até mesmo mais miraculoso do que um instinto – um fenômeno em si já bastante miraculoso. Embora não entendamos quase nada sobre os instintos, realmente os concebemos operando dentro dos limites do indivíduo que os possui. Podemos imaginar a resistência às desordens mentais ou físicas na mente consciente ou nos processos físicos do indivíduo. Contudo, os acidentes envolvem interações entre indivíduos, ou entre indivíduos e coisas inanimadas. As rodas daquele carro não passaram por cima de mim quando eu tinha nove anos devido ao meu instinto de sobrevivência, ou por que o motorista tinha uma resistência instintiva a me matar? Talvez tenhamos um instinto que preservei não apenas as nossas próprias vidas, mas também a vida dos outros
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Embora eu não tenha experimentado isso pessoalmente, tive vários amigos que testemunharam acidentes em que as “vítimas” se arrastaram praticamente intactas para fora de veículos total, mente destruídos. A reação deles foi de pura estupefação. “Não entendo como alguém poderia ter sobrevivido a um acidente desses, muito menos sem nenhum ferimento grave!”, dizem. Como podemos explicar isso? Puro acaso? Esses amigos, que não são pessoas religiosas, ficaram impressionados exatamente porque o acaso não parecia estar envolvido nesses incidentes. “Ninguém poderia ter sobrevivido”, garantem. Embora não sejam religiosos, e nem mesmo tenham refletido sobre o que diziam ao tentar digerir essas experiências, meus amigos fizeram comentários como: “Bem, acho que Deus ama os bêbados” ou “Acho que ainda não era sua hora”. O leitor pode escolher entre considerar o mistério desses incidentes “puro acaso” ou um “capricho do destino”, e assim evitar maiores reflexões. Mas um exame mais atento revela que nosso conceito de instinto não consegue explicá-los satisfatoriamente. Um veículo motorizado inanimado possui um instinto de se deformar no instante do impacto para preservar os contornos do corpo humano preso em seu interior? Ou o ser humano possui um instinto de, no momento da colisão, adaptar seus contornos ao padrão do veículo deformado? Essas perguntas parecem intrinsecamente absurdas. Embora eu prefira continuar explorando a possibilidade de explicar esses incidentes, está claro que nosso conceito tradicional de instinto não me será muito útil. Talvez o conceito de sincronicidade seja mais…
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck
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Veja também A Graça falando no programa do Jô

Areia – massa solta, pulverulenta, que reúne granículos…

Castelos de Areia
Paulinho Moska

Composição: Moska e Jorge Mautner

O cientista descobriu
Que o cérebro humano tem mais poder
Do que toda a vida na Floresta Amazônica

Mas tanta droga ele consumiu
Que seu pensamento o diluiu
E agora ele chora sua lágrima atômica

É… pois é, meu bem…
Castelos de areia derretem quando a onda vem

Virou Areia
Lenine

Composição: Lenine/Bráulio Tavares

Cadê a esfinge de pedra que ficava ali
Virou areia
Cadê a floresta que o mar já avistou dali
Virou areia
Cadê a mulher que esperava o pescador
Virou areia
Cadê o castelo onde um dia já dormiu um rei
Virou areia
E o livro que o dedo de Deus deixou escrita a lei
Virou areia
Cadê o sudário do salvador
Virou areia

Castelos de Areia
Paulinho Moska

Virou Areia
Lenine

Letras Completas

Castelos de Areia
Paulinho Moska

Composição: Moska e Jorge Mautner

Ele nasceu para ser o melhor
Seus pais projetaram o futuro ideal
Nada lhes daria mais prazer do que vê-lo crescer bem

Mas naquela manhã encontraram um bilhete
Com palavras de dor e adeus
Daquele menino que agora queria ser alguém

É… pois é, meu bem…
Castelos de areia derretem quando a onda vem

O crente rezou durante toda a sua vida
Para ter um sinal do Senhor
Dias e dias dizendo a mesma oração: Amém

E quando seu peito doeu como luz
Ele pensou: Agora vou ver Jesus!
Mas a luz se foi e ficou só a dor no seu coração

É… pois é meu bem…
Castelos de areia derretem quando a onda vem

O cientista descobriu
Que o cérebro humano tem mais poder
Do que toda a vida na Floresta Amazônica

Mas tanta droga ele consumiu
Que seu pensamento o diluiu
E agora ele chora sua lágrima atômica

É… pois é, meu bem…
Castelos de areia derretem quando a onda vem

Estamos no ano 4 mil
Não existe mais calor nem frio
Ninguém morre, ninguém fica mais doente

Só uma coisa nos tira o sossego
É que apesar de sermos eternos
O medo é que neste fim sem fim
Seremos sugados pelo buraco negro

Virou Areia
Lenine

Composição: Lenine/Bráulio Tavares

Cadê a esfinge de pedra que ficava ali
Virou areia
Cadê a floresta que o mar já avistou dali
Virou areia
Cadê a mulher que esperava o pescador
Virou areia
Cadê o castelo onde um dia já dormiu um rei
Virou areia
E o livro que o dedo de Deus deixou escrita a lei
Virou areia
Cadê o sudário do salvador
Virou areia

Areia a lua batendo no chão do terreiro
Areia o barro batido subindo no ar
Areia o menino sentado na beira da praia
Areia fazendo com a mão castelo no mar
E a onda que cerquei e que passou
Virou areia
Nasceu no mar e na terra se acabou
Virou areia

Cadê a voz que encantava multidão, cadê
Virou areia
Cadê o passado o presente a paixão
Virou areia
Cadê a muralha do imperador
Virou areia

Perfeição

Legião Urbana -- Perfeição

Mais estupidez humana aqui com Arnaldo Antunes

A arte de produzir fome

Adélia Prado me ensina pedagogia. Diz ela: “Não quero faca nem queijo; quero é fome”. O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…
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Sugeri, faz muitos anos, que, para se entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros bem que podem dar lições aos professores. Foi na cozinha que a Babette e a Tita realizaram suas feitiçarias… Se vocês, por acaso, ainda não as conhecem, tratem de conhecê-las: a Babette, no filme “A Festa de Babette”, e a Tita, em “Como Água para Chocolate”. Babette e Tita, feiticeiras, sabiam que os banquetes não começam com a comida que se serve. Eles se iniciam com a fome. A verdadeira cozinheira é aquela que sabe a arte de produzir fome…
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Quando vivi nos Estados Unidos, minha família e eu visitávamos, vez por outra, uma parenta distante, nascida na Alemanha. Seus hábitos germânicos eram rígidos e implacáveis.
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Não admitia que uma criança se recusasse a comer a comida que era servida. Meus dois filhos, meninos, movidos pelo medo, comiam em silêncio. Mas eu me lembro de uma vez em que, voltando para casa, foi preciso parar o carro para que vomitassem. Sem fome, o corpo se recusa a comer. Forçado, ele vomita.
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Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim “affetare”, quer dizer “ir atrás”. É o movimento da alma na busca do objeto de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.
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Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde morava, havia uma casa com um pomar enorme que eu devorava com os olhos, olhando sobre o muro. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia.
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Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas frutinhas vermelhas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las.
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E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar. Anote isso: o pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo.
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Se eu não tivesse visto e desejado as ditas frutinhas, minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine se a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes sobre o muro, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das ditas frutinhas, as pitangas. Nesse caso, também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho, sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Anote isso também: se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido perguntas.
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Provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar me fez uma primeira sugestão, criminosa. “Pule o muro à noite e roube as pitangas.” Furto, fruto, tão próximos… Sim, de fato era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo. E se eu fosse pilhado no momento do meu furto? Assim, rejeitei o pensamento criminoso, pelo seu perigo.
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Mas o desejo continuou e minha máquina de pensar tratou de encontrar outra solução: “Construa uma maquineta de roubar pitangas”. McLuhan nos ensinou que todos os meios técnicos são extensões do corpo. Bicicletas são extensões das pernas, óculos são extensões dos olhos, facas são extensões das unhas.
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Uma maquineta de roubar pitangas teria de ser uma extensão do braço. Um braço comprido, com cerca de dois metros. Peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu, sem uma mão, seria inútil: as pitangas cairiam.
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Achei uma lata de massa de tomates vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E lhe fiz um dente, que funcionasse como um dedo que segura a fruta. Feita a minha máquina, apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo. Anote isso também: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo.
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Imagine agora se eu, mudando-me para um apartamento no Rio de Janeiro, tivesse a idéia de ensinar ao menino meu vizinho a arte de fabricar maquinetas de roubar pitangas. Ele me olharia com desinteresse e pensaria que eu estava louco. No prédio, não havia pitangas para serem roubadas. A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. E anote isso também: conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome: o fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido.
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Dizia Miguel de Unamuno: “Saber por saber: isso é inumano…” A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome… Se ele tiver fome, mesmo que não haja queijo, ele acabará por fazer uma maquineta de roubá-los. Toda tese acadêmica deveria ser isso: uma maquineta de roubar o objeto que se deseja…
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Rubem Alves

O que não é amor 3


Dependência

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Outra concepção muito comum sobre o amor é a idéia de que dependência é amor. Trata-se de uma concepção errônea com a qual os psicoterapeutas precisam lidar diariamente. Seu efeito é visto de forma mais dramática quando um indivíduo tenta ou ameaça suicidar-se, ou se toma incapacitantemente deprimido reagindo à rejeição ou separação de um cônjuge ou amante. Essa pessoa diz: “Não quero, não consigo viver sem meu marido [mulher, namorada, namorado]. Eu o [a] amo tanto!” E quando eu respondo, como freqüentemente faço, “Você está errado [a], não ama seu marido [mulher, namorada, namorado] “, a resposta irritada é: “Como assim? Acabei de dizer que não posso viver sem ele [ela].” Eu tento explicar: “O que você está descrevendo é parasitismo, não amor. Quando você precisa de outra pessoa para sobreviver, é um parasita dela. Não há escolha nem liberdade envolvida em seu relacionamento. É uma questão de necessidade, e não de amor. O amor é o livre exercício da escolha. Duas pessoas só se amam quando são capazes de viver sem o outro mas escolhem viver juntas.”
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Defino a dependência como a incapacidade de experimentar a totalidade ou funcionar adequadamente sem a certeza de que o outro está realmente cuidando de nós. Em adultos fisicamente sadios, a dependência é patológica – doentia, sempre uma manifestação de uma doença ou falha mental. Deve ser distinguida do que comumente chamamos de necessidades ou sentimentos de dependência. Todos nós – mesmo quando fingimos para os outros e nós mesmos que não – temos necessidades e sentimentos de dependência. Todos nós queremos ser mimados, nutridos, cui¬dados por pessoas mais fortes do que nós que realmente se preocupam conosco – e sem ter que fazer o menor esforço. Não importa o quanto somos fortes, dedicados, responsáveis e adultos, se olharmos atentamente para nós mesmos descobriremos o desejo de que cuidem de nós, para variar. Por mais velhos e maduros que sejamos, buscamos e gostaríamos de ter em nossas vidas figuras maternas e paternas satisfatórias. Mas, para a maioria de nós, esses desejos não são dominantes; não são o tema central de nos¬sa existência. Quando eles realmente dominam nossa vida e ditam a qualidade da nossa existência, temos algo mais do que apenas necessidades ou sentimentos de dependência: somos dependentes. Especificamente, uma pessoa cuja vida é dominada e ditada por necessidades de dependência, sofre de uma desordem psíquica diagnosticada como “desordem de personalidade dependente passiva”, talvez a desordem psiquiátrica mais comum.
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Esses indivíduos – os dependentes passivos – estão tão ocupados tentando ser amados que não lhes resta energia para amar. São como pessoas esfomeadas, procurando alimento onde podem, e sem ter alimento para oferecer aos outros. É como se fossem vazias por dentro, um poço sem fundo que nunca pode ser totalmente preenchido. Nunca estão “satisfeitas” ou têm uma sensação de plenitude. Sempre acham que “algo está faltando”. Não suportam a solidão. Devido à sua falta de totalidade, não possuem um verdadeiro senso de identidade e se definem apenas por seus relacionamentos.
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Um operador de prensa de perfuração, trinta anos de idade, extremamente deprimido, veio me ver três dias depois de sua mulher tê-lo abandonado, levando seus dois filhos. Ela já ameaçara ir embora três vezes, reclamando da sua total falta de atenção para com ela e as crianças. Em todas essas vezes ele lhe havia implorado para ficar e prometera mudar, mas sua mudança nunca durava mais do que um dia – e daquela vez ela cumprira a ameaça. Ele não dormia há duas noites e tremia de ansiedade. As lágrimas escorriam por seu rosto e pensava seriamente em suicídio.
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- Não posso viver sem minha família -, disse, chorando. – Eu amo muito todos eles.
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- Estou perplexo – respondi. – Você me disse que as queixas da sua mulher eram válidas, que nunca fez nada por ela, que só ia para casa quando queria, que não estava interessado nela sexual ou emocionalmente, que ficava meses a fio sem falar com as crianças, que nunca brincava com elas ou as levava a parte alguma. Você não tem relação alguma com as pessoas da sua família, por isso não entendo porque está tão deprimido com a perda de um relacionamento que nunca existiu.
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- Você não entende? – ele replicou. – Não sou nada agora. Nada. Não tenho mulher. Não tenho filhos. Não sei quem sou.
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Posso não me importar com eles, mas preciso amá-los. Não sou nada sem eles.
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Como ele estava muito deprimido – tendo perdido a identidade que sua família lhe dava – marquei uma nova consulta para dois dias depois. Não esperava grandes melhoras. Entretanto, quando ele voltou, entrou no consultório sorrindo alegremente e anunciando:
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- Está tudo bem agora.
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- Você voltou a viver com a sua família? – perguntei.
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- Ah, não – respondeu sorrindo. – Não tenho notícias deles desde que estive aqui. Mas ontem à noite conheci uma garota no bar que freqüento. Ela disse que realmente gosta de mim. É separada, como eu. Marcamos um novo encontro esta noite. Eu me sinto humano de novo. Acho que não preciso mais me consultar com você.
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Essas mudanças rápidas são típicas dos dependentes passivos. Não importa de quem eles dependem, desde que haja alguém de quem depender. Não importa qual é sua identidade, desde que haja alguém para fornecê-la. Conseqüentemente, seus relacionamentos, embora pareçam dramáticos em sua intensidade, são na verdade extremamente superficiais. Devido à sua forte sensação de vazio interior e ânsia de preenchê-lo, os dependentes passivos não adiam a satisfação da sua necessidade de outras pessoas.
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Uma jovem bonita, inteligente e saudável tivera, dos dezesseis aos 21 anos, uma série quase interminável de relacionamentos sexuais com homens invariavelmente inferiores a ela em termos de inteligência e capacidade. Ela passava de um perdedor para outro. Descobrimos que o problema era que não conseguia esperar o bastante para procurar um homem adequado, ou até mesmo escolher entre os muitos homens quase que imediatamente disponíveis. Vinte e quatro horas depois de terminar um relacionamento, paquerava o primeiro homem que conhecia em um bar e comparecia à próxima sessão de terapia tecendo-lhe elogios. “Sei que ele está desempregado e bebe demais, mas é muito talentoso e realmente gosta de mim. Sei que este relacionamento vai dar certo.”
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Mas nunca dava certo. Não só porque ela não sabia escolher, como também porque seguia um padrão de grudar-se no homem, exigindo provas da sua afeição e sua presença constante, recusando-se a ficar só. “Não suporto estar longe de você porque te amo muito”, dizia-lhe, mas cedo ou tarde ele se sentia totalmente su¬focado e aprisionado pelo seu “amor”. O resultado era uma vio¬lenta explosão, o fim do relacionamento e o recomeço do ciclo no dia seguinte. Esta mulher só conseguiu quebrar esse ciclo depois de três anos de terapia, nos quais passou a apreciar sua própria inteligência e qualidades, a identificar e a distinguir seu vazio e sua ânsia do genuíno amor, a perceber como a sua fome a estava levando a iniciar e manter relacionamentos prejudiciais e a aceitar a necessidade da mais rígida disciplina sobre sua ansiedade para tirar partido dos seus dons.
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No diagnóstico, a palavra “passivo” é usada conjuntamente com a palavra “dependente” porque essas pessoas se preocupam com o que os outros podem fazer por elas, e não com o que elas próprias podem fazer aos outros. Certa vez, trabalhando com um grupo de cinco pacientes solteiros – todos dependentes passivos -, pedi que falassem sobre seus objetivos. Como gostariam de estar dali a cinco anos? De um modo ou de outro, todos responderam: “Quero me casar com alguém que realmente se importe comigo.” Ninguém falou em ter um emprego interessante, criar uma obra de arte, contribuir para a comunidade, ser capaz de amar alguém ou até mesmo ter filhos. A idéia de esforço não estava envolvida em seus devaneios; só visualizavam um estado passivo de recepção de afeto. Na ocasião, disse a esses pacientes, como digo a tan¬tos outros: “Se o objetivo de vocês é ser amados, não vão conseguir.
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O único modo garantido de ser amado é ser digno de amor, e vocês não podem ser dignos de amor quando seu principal objetivo na vida é ser amados passivamente.” Isso não significa que as pessoas dependentes passivas nunca façam coisas pelos outros, mas sua principal motivação para fazê-las é consolidar o apego dos outros a elas, garantindo assim sua própria proteção. E quando a possibilidade de afeto do outro não está diretamente envolvida, elas têm grande dificuldade em “fazer coisas”. Todos os membros desse grupo acharam extremamente difícil comprar uma casa, separar-se dos pais, arranjar um emprego, deixar um trabalho antigo ou até mesmo dedicar-se a um hobby.
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No casamento normalmente há uma diferenciação dos papéis dos dois cônjuges, uma divisão de trabalho que costuma ser eficiente. Em geral a mulher cozinha, limpa a casa, faz as compras e cuida dos filhos; o homem tem um emprego, cuida das finanças, apara a grama e faz reparos. Os casais sadios trocam instintivamente de papéis de vez em quando. O homem pode cozinhar uma vez ou outra, passar um dia da semana com os filhos, limpar a casa para surpreender a mulher; ela, por sua vez pode arranjar um trabalho de meio expediente, aparar a grama no aniversário do marido ou cuidar dos cheques e das contas durante um ano. Muitas vezes o casal considera essa troca de papéis um tipo de jogo que traz sabor e variedade para o casamento. É verdade, mas talvez o mais importante (até mesmo quando realizado de maneira inconsciente) seja o fato de esse processo diminuir a dependência mútua. De certo modo, cada cônjuge faz uma espécie de treinamento de sobrevivência para o caso de perder o outro. Para os dependentes passivos, no entanto, a perspectiva de perder o outro é tão assustadora que não conseguem encarar a preparação para isso, ou tolerar um processo que reduziria a dependência ou aumentaria a liberdade do outro. Conseqüentemente, uma de suas características marcantes é que sua diferenciação de papéis é rígida. Em vez de diminuir eles tentam aumentar a dependência mútua, tornando o casamento mais parecido com uma prisão. Ao fazer isso – em nome do que chamam de amor, mas que na realidade é dependência – limitam sua própria liberdade e estatura, assim como as do outro.
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Ocasionalmente, como parte desse processo, os dependentes passivos desistem de habilidades que possuíam antes do casamento. Um exemplo muito comum é a síndrome da mulher que “não consegue” dirigir. Na metade dos casos, ela pode nunca ter dirigido; mas na outra metade, algumas vezes após um pequeno acidente, ela desenvolve uma “fobia” de dirigir – em algum ponto após o casamento – e pára de guiar. O efeito dessa “fobia” em áreas rurais e suburbanas, onde moram muitas pessoas, é tornar a mulher quase que totalmente dependente do marido e prendê-lo a ela pela sua incapacidade. Agora ele deve fazer todas as compras para a família – ou então levá-la para o supermercado. Como em geral esse comportamento satisfaz as necessidades de dependência de ambos, quase nunca os casais o consideram doentio ou ao menos um problema a ser resolvido. Quando sugeri a um banqueiro – extremamente inteligente em outras questões – que sua mulher, que subitamente parara de dirigir aos 46 anos devido a uma “fobia”, poderia ter um problema digno de atenção psiquiátrica, ele retrucou: “Ah, não, o médico lhe disse que era por causa da menopausa, e que nada poderia ser feito quanto a isso.” A mulher se sentia segura sabendo que o marido nunca a deixaria ou teria uma amante, porque estava ocupado demais depois do trabalho, levando-a às compras e transportando os filhos. O marido se sentia seguro sabendo que a mulher nunca o deixaria ou teria um amante, porque não tinha mobilidade para encontrar pessoas quando ele estava longe. Através desse comportamento, os casamentos de dependência passiva podem se tornar duradouros e seguros, mas não ser considerados sadios ou genuinamente amorosos, porque a segurança é obtida à custa da liberdade e o relacionamento serve para retardar ou destruir o crescimento de cada parceiro. Costumo dizer aos casais que “um bom casamento só pode existir entre duas pessoas fortes e independentes”.
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A dependência passiva se origina de uma falta de amor. A sensação de vazio que atinge esses dependentes é um resultado direto da incapacidade de seus pais de satisfazer suas necessidades de afeto, atenção e carinho durante a infância. Na primeira parte desse livro mencionei que as crianças amadas e protegidas com relativa constância durante toda a infância entram na idade adulta com um sentimento profundo de que são valiosas e dignas de amor e, portanto, serão amadas e protegidas enquanto permanecerem fiéis a si mesmas. Já as crianças que crescem em uma atmosfera em que o amor e o carinho são raros ou estão ausentes, tomam-se adultos sem essa força interior. Em vez disso, têm uma sensação de insegurança, de “não ter o bastante”, de que o mundo é imprevisível e frio e de que seu valor e seu direito de serem amadas são duvidosos. Portanto, não é de admirar que essas pessoas sintam necessidade de agarrar o amor, o cuidado e a atenção onde quer que os encontrem, com um desespero que as leva a ter um comportamento manipulador, maquiavélico e sem amor, que destrói os mesmos relacionamentos que tentam preservar.
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Como também já dissemos na parte anterior, o amor e a discipli¬na caminham de mãos dadas, de modo que pais sem afeto e carinho são pessoas sem disciplina, e quando não conseguem oferecer aos filhos a sensação de que são amados, tampouco lhes oferecem a capa¬cidade de autodisciplina. Assim, a dependência passiva é apenas a principal manifestação de uma desordem de personalidade. Os dependentes passivos não têm autodisciplina. Não estão dispostos ou não são capazes de adiar a gratificação de sua fome de atenção. Em seu desejo desesperado de criar e manter vínculos, deixam de lado a honestidade. Apegam-se a relacionamentos deteriorados quando deveriam renunciar a eles. Mais importante ainda, não se sentem responsáveis por si mesmos. Fazem passivamente dos outros, muitas vezes até dos próprios filhos, a fonte de sua felicidade e realização; portanto, quando não estão felizes ou realizados, basicamente acreditam que os outros são os responsáveis. Por isso estão sempre zangados, sempre se decepcionando com os outros, que na verdade nunca satisfazem suas necessidades nem são capazes de fazê-los felizes. Tenho um colega que costuma dizer: “A pior coisa que você pode fazer é se permitir ser dependente de outra pessoa. É melhor ser dependente de heroína. Enquanto houver uma dose, ela nunca o decepcionará. Enquanto estiver presente, fará você feliz. Mas se você esperar que outra pessoa lhe traga felicidade, acabará sempre desapontado.” Na verdade, não é por acaso que a perturbação mais comum que os dependentes passivos manifestam – além dos relacionamentos – é a dependência de drogas e álcool. Eles têm uma “personalidade viciável”. Viciam-se em pessoas, sugando-as e consumindo-as, e quando elas não estão disponíveis para lhes servir, freqüentemente usam a garrafa, a agulha ou a pílula como substitutos.
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Em resumo, a dependência pode parecer amor porque faz as pessoas se agarrarem fortemente umas às outras. Mas na verdade não é amor, e sim uma forma de antiamor, que nasce de uma inca¬pacidade dos pais de amar. Uma incapacidade que se perpetua e quer receber em vez de dar; alimenta o infantilismo e não o crescimento. Esforça-se para aprisionar e conter em vez de liberar. Acaba destruindo indivíduos e relacionamentos em vez de fortalecê-los.
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

Pinguins e Deus III

Então, por que você não quer defender o Cristianismo?
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- perguntou ele, confuso. Eu disse a ele que já não sabia o que o termo significava. Das centenas de milhares de pessoas que ouviam o programa naquele dia, algumas tinham tido experiências terríveis com o Cristianismo; elas talvez tenham ouvido gritos do seu professor em uma escola cristã, tinham sido assediadas por um ministro ou humilhadas por um pai cristão. Para elas o termo Cristianismo significava algo que nenhum cristão que eu conhecia iria defender. Fortalecendo o termo, eu estava apenas as deixando ainda com mais raiva. Eu não faria isso. Aborde dez pessoas na rua e pergunte a elas no que elas pensam quando ouvem a palavra Cristianismo e elas darão a você dez respostas diferentes. Como posso defender um termo que significa dez coisas diferentes para dez pessoas diferentes? Eu disse ao entrevistador do programa de rádio que preferiria falar sobre Jesus e sobre como passei a acreditar que ele existe e que gosta de mim. O entrevistador olhou para mim com lágrimas nos olhos. Quando nós tínhamos terminado, ele me convidou para almoçar.”
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Veja tbm Pinguins e Deus I e II
Parte do Livro “Como Pinguins me ajudaram a entender Deus” Donald Miller
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Veja também A Graça falando no programa do Jô

O que não é amor 2

0 mito do amor romântico

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PARA NOS APRISIONAR COM TANTA EFICIÊNCIA NO CASAMENTO, uma das características da paixão deve ser provavelmente a ilusão de que irá durar para sempre. Em nossa cultura, esta ilusão é alimentada pelo mito do amor romântico, cujas origens remontam à infância, aos nossos contos de fadas favoritos em que a princesa e o príncipe, uma vez unidos, vivem felizes para sempre. O mito do amor romântico na verdade nos diz que, para cada homem no mundo, há uma mulher que “nasceu para ele” – e vice-versa. Também sugere que só há um homem para uma mulher e uma mulher para um homem, e que esse encontro “está escrito nas estrelas”. Quando encontramos a pessoa que nos é destinada, nós a reconhecemos através da paixão. Descoberta aquela que os céus escolheram para nós, a combinação será perfeita: conseguiremos satisfazer todas as suas necessidades e seremos felizes para sempre em perfeita união e harmonia. Mas se essas necessidades não forem satisfeitas, se surgirem atritos e nos desapaixonarmos, ficará claro que cometemos um erro terrível, interpretamos erradamente as estrelas, não formamos o único par perfeito, o que pensávamos que fosse amor não era real ou “verdadeiro”, e nada pode ser feito em relação a isso além de vivermos infelizes para sempre ou nos divorciarmos.
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Embora em geral eu ache que os grandes mitos são grandes exatamente porque representam e incorporam verdades universais (mais tarde examinarei vários desses mitos), o mito do amor romântico não passa de uma terrível mentira. Talvez seja uma mentira necessária, já que garante a sobrevivência da espécie ao encorajar e aparentemente legitimar a experiência da paixão que nos aprisiona ao casamento. Mas, como psiquiatra, lamento profundamente com freqüência pela horrível confusão e sofrimento que ela causa. Milhões de pessoas desperdiçam um bocado de energia tentando desesperada e inutilmente ajustar a realidade de suas vidas à irrealidade do mito. A Sra. A. se submete absurdamente ao marido devido a um sentimento de culpa. “Eu realmente não o amava quando nos casamos”, diz. “Fingia que amava. Acho que o enganei, por isso não tenho o direito de reclamar dele, e devo fazer tudo que ele quer.” O Sr. B. lamenta: “Eu me arrependi de não ter casado com a Srta. C. Acho que teria sido um bom casamento. Mas não estava loucamente apaixonado por ela, então achei que poderia não ser a pessoa certa para mim.” A Sra. D., casada há dois anos, sente-se muito deprimida sem causa aparente, e passa a terapia dizendo: “Não sei o que há de errado comigo. Tenho tudo que preciso, inclusive um casamento perfeito.” Somente meses depois ela conseguiu aceitar o fato de que se desapaixonara pelo marido, mas isso não significava que cometera um erro terrível. O Sr. E., também casado há dois anos, começa a sofrer de fortes dores de cabeça à noite e não consegue acreditar que sejam psicossomáticas. “Minha vida familiar está ótima. Amo a minha mulher tanto quanto no dia em que nos casamos”, afirma. Mas só se livra de suas dores de cabeça um ano depois, quando consegue admitir que “Ela me deixa louco, sempre querendo, querendo, querendo coisas sem se preocupar com o meu salário” e então consegue confrontá-la com sua extravagância. O Sr. E. a Sra. E admitem um para o outro que se desapaixonaram e então infernizam suas vidas sendo infiéis na busca do “verdadeiro amor”, sem perceber que o próprio fato de terem admitido que não estão mais apaixonados poderia marcar o início de um esforço em prol do casamento, em vez de seu fim.
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Mesmo quando os casais admitem que a lua-de-mel acabou, que não estão mais romanticamente apaixonados e ainda são capazes de se comprometer com o relacionamento, continuam apegados ao mito e tentando ajustar suas vidas a ele. Pensam: “Embora a paixão tenha acabado, se tivermos força de vontade para agir como se ainda estivéssemos apaixonados, talvez o amor romântico volte para as nossas vidas.” Esses casais valorizam a união. Quando entram em grupos de terapia de casais (que é para onde minha mulher, eu e nossos colegas mais próximos encaminhamos a maioria dos casos sérios) eles se sentam juntos, falam um em nome do outro, justificam os defeitos do outro e tentam se apresentar diante do grupo como uma frente unida, acreditando que essa união será um sinal de relativa saúde matrimonial e um pré-requisito para a sua melhora. Mais cedo ou mais tarde, geralmente mais cedo, temos de dizer-lhes que estão casados demais, unidos demais e precisam estabelecer alguma distância psicológica para começar a trabalhar construtivamente seus problemas. Às vezes é de fato necessário separá-los fisicamente, fazendo-os sentarem-se longe um do outro no círculo do grupo. Repetidamente temos de dizer “Deixe Mary falar por si mesma, John” e “John pode se defender sozinho, Mary, é forte o suficiente para isso”. No final, se continuam na terapia, todos os casais aprendem que uma real aceitação da individualidade e distinção de cada um é a unica base sobre a qual um casamento maduro pode ser construído e o amor verdadeiro pode crescer.
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

Vida a lá Margarina…

“Um filho e um cachorro” -- Zeca baleiro

Já tenho um filho e um cachorro
Me sinto como num comercial de margarina
Sou mais feliz do que os felizes
Sob as marquises me protejo do temporal

“No Surprises” -- Radiohead
Sem surpresas

um coração cheio feito um aterro
um emprego que te mata lentamente
feridas que não vão cicatrizar
você parece tão cansada e feliz
bote abaixo o governo
eles não
eles não falam por nós
eu vou levar uma vida tranqüila
um aperto de mão
um pouco de monóxido de carbono
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“Um filho e um cachorro” -- Zeca baleiro Aperte o Play

“No Surprises” -- Radiohead

Letras Completas
“Um filho e um cachorro” -- Zeca baleiro

Já tenho um filho e um cachorro
Me sinto como num comercial de margarina
Sou mais feliz do que os felizes
Sob as marquises me protejo do temporal

Oh meu amor me espere
Que eu volto pro jantar
Ainda tenho fome

Eu vejo tudo claramente
Com os meus óculos de grau
Loucura é quase santidade
E o bem também pode ser mal

Engrosso o coro dos com dentes
E me contento em ser banal
Loucura é quase santidade
E o bem meu bem pode ser mal

No Surprises (tradução by rudimar)

um coração cheio feito um aterro
um emprego que te mata lentamente
feridas que não vão cicatrizar
você parece tão cansada e feliz
bote abaixo o governo
eles não
eles não falam por nós
eu vou levar uma vida tranqüila
um aperto de mão
um pouco de monóxido de carbono

sem alarmes e sem surpresas
silencio
silencio

este é o meu último ataque
minha última dor de barriga
sem alarmes e sem surpresas,
sem alarmes e sem surpresas, por favor
assim como uma bela casa. assim como um belo jardim
sem alarmes e sem surpresas….

O que não é amor 1

Como já disse, pacientes que recorrem à psicoterapia invariavelmente se encontram de certa forma confusos quanto à natureza do amor. Isso porque, devido ao seu mistério, há muitas concepções errôneas sobre o amor. Embora este livro não vá roubar-lhe o mistério, espero que seja capaz de esclarecer algumas questões que ajudem a eliminar essas concepções equivocadas que causam sofrimento não só aos pacientes, mas também a todas as pessoas que tentam compreender suas próprias experiências. Parte desse sofrimento me parece desnecessária, já que essas fantasias do amor poderiam se tornar menos populares através do ensino de uma definição mais precisa do amor. Por isso, decidi começar a explorar a natureza do amor examinando tudo o que ele não é.

A amor não é…

“Apaixonar-se”

DE TODAS AS CONCEPÇÕES ERRÔNEAS, a mais poderosa e insidiosa é aquela que afirma que a paixão é sinônimo de amor – ou, pelo menos, uma de suas manifestações. É poderosa, porque a paixão é experimentada subjetiva e intensamente como amor. Quando uma pessoa se apaixona, o que ele ou ela certamente sente é “eu o amo” ou “eu a amo”. Só que dois problemas se tomam imediatamente visíveis. O primeiro é que a experiência da paixão é especificamente erótica. Não nos apaixonamos por nossos filhos, embora possamos amá-los profundamente. Não nos apaixonamos por amigos do mesmo sexo – a não ser que sejamos homossexuais -, embora possamos gostar muito deles. Só nos apaixonamos quando temos consciente ou inconscientemente uma motivação sexual. O segundo problema é que a experiência da paixão é invariavelmente temporária. Não importa por quem nos apaixonamos, se o relacionamento durar, cedo ou tarde nos desapaixonaremos. Isso não significa que sempre deixamos de amar a pessoa por quem nos apaixonamos, mas que o êxtase que caracteriza a paixão acaba. A lua-de-mel sempre termina. O romance perde o brilho.
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Para compreender a natureza do fenômeno da paixão e a inevitabilidade do seu fim, é necessário examinar o que os psiquiatras chamam de fronteiras do ego. Pelo que podemos constatar—através de evidências indiretas, nos primeiros meses de vida o recém-nascido não distingue entre si mesmo e o resto do universo. Quando move braços e pernas, o mundo se move. Quando tem fome, o mundo também tem. Quando vê sua mãe se movendo, é como se ele estivesse se movendo. Quando sua mãe canta, o bebê não sabe que não é ele quem está produzindo o som. Ele não consegue se distinguir do berço, do quarto e dos pais. O animado e o inanimado são a mesma coisa. Ainda não existe distinção entre “eu” e “você”. Ele e o mundo são um só. Não há fronteiras, separações. Não há identidade.
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Com o tempo a criança começa a se experimentar como uma entidade separada do resto do mundo. Quando tem fome, a mãe nem sempre aparece para alimentá-la. Quando quer brincar, nem sempre a mãe está disposta. Então a criança percebe que seus desejos não são ordens para a mãe, que sua vontade é algo distinto do comportamento dela. Começa a surgir uma noção do “eu”. Acredita-se que essa interação entre mães e filhos é a base sobre a qual a noção de identidade da criança começa a ser construída. Foi observado que quando a interação entre eles é gravemente perturbada – por exemplo, quando não há mãe nem uma substituta satisfatória, ou quando a mãe, devido à sua própria doença mental, é totalmente negligente ou desinteressada – o bebê se toma uma criança ou um adulto cujo senso de identidade apresenta as falhas mais básicas.
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À medida que o bebê percebe que sua vontade é apenas dele e não do universo, começa a fazer outras distinções entre si mesmo e o mundo. Quando tem vontade de se mover, seu braço balança diante dos seus olhos, mas nem o berço nem o teto se movem. Assim, aprende que seu braço e sua vontade estão ligados, e que portanto seu braço pertence a ele, não é algo externo ou de outra pessoa. Dessa maneira, durante o primeiro ano de vida, aprendemos os fundamentos de quem ou o que somos ou não. No final do nosso primeiro ano, sabemos que o braço, o pé, a cabeça, a língua, os olhos e até mesmo o ponto de vista, a voz, os pensamentos, a dor de barriga e os sentimentos nos pertencem. Conhecemos nosso tamanho e nossos limites físicos. Esse conhecimento é o que chamamos de fronteiras do ego.
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O desenvolvimento dessas fronteiras é um processo que continua através da infância, durante a adolescência e até mesmo, na idade adulta, mas os limites estabelecidos posteriormente são mais psíquicos do que físicos. Por exemplo, a idade entre dois e três anos é tipicamente um período em que a criança aceita os limites do seu poder. Embora já tenha aprendido que seu desejo não é necessariamente uma ordem para a mãe, ainda se apega à possibilidade de que poderia ser e ao sentimento de que deveria ser. É devido a essa esperança e a esse sentimento que a criança de dois anos geralmente tenta agir como um tirano e autocrata, dando ordens aos pais, aos irmãos e aos animais de estimação como se fossem soldados rasos de seu exército particular, e reagindo com uma fúria real quando não é atendida. Por isso, os pais referem-se a essa idade como “os terríveis dois anos”. Aos três anos a criança geralmente se tomou mais tratável e tranqüila como um resultado da aceitação da realidade de sua relativa impotência. Ainda assim, a possibilidade da onipotência ainda é um sonho tão agradável que não pode ser completamente abandonado, mesmo depois de anos de doloroso confronto com a própria impotência. Embora a criança de três anos tenha passado a aceitar a realidade dos limites do seu poder, durante alguns anos continuará ocasionalmente fugindo para um mundo da fantasia em que a possibilidade da onipotência (particularmente a sua) ainda existe. É o mundo do Super-Homem e do Capitão Marvel. No entanto, gradualmente, até mesmo os super-heróis são abandonados. No meio da adolescência os jovens já sabem que são indivíduos, presos aos limites do próprio corpo e poder, cada um deles um organismo relativamente frágil e impotente, existindo apenas através da cooperação de um grupo de semelhantes organizados em sociedade. Dentro desse grupo eles não se distinguem particularmente, mas são separados uns dos outros por suas identidades, fronteiras e limites individuais.
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É solitário estar dentro dessas fronteiras. Algumas pessoas – particularmente aquelas que os psiquiatras chamam de esquizóides -, devido a experiências desagradáveis e traumáticas na infância, consideram o mundo exterior irremediavelmente perigoso, hostil, confuso e insatisfatório. Acham que suas fronteiras as protegem e confortam, e encontram segurança na solidão. Mas a maioria de nós acha a solidão dolorosa e deseja fugir da muralha da identidade individual para poder se sentir mais unido com o mundo externo. A experiência de se apaixonar nos permite essa fuga – temporariamente. A essência do fenômeno da paixão é um súbito colapso de parte das fronteiras do ego de um indivíduo, que lhe permite unir sua identidade à de outra pessoa. A repentina libertação do indivíduo de si mesmo, a explosiva fusão com a pessoa amada e o grande alívio da solidão que acompanham esse colapso são experimentados pela maioria de nós como um êxtase. Nós e a pessoa amada somos um só! A solidão acabou!
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Em alguns aspectos (mas certamente não em todos), o ato de se apaixonar é um ato de regressão. A experiência de se fundir com a pessoa amada faz eco ao tempo em que estávamos unidos com nossas mães. Junto com a fusão, voltamos a experimentar a sensação de onipotência abandonada na infância. Tudo parece possível! Unidos à pessoa amada achamos que podemos superar todos os obstáculos. Acreditamos que a força do nosso amor subjugará e fará sumir nas trevas as forças da oposição. Todos os problemas serão resolvidos. O futuro será só alegria. A irrealidade desses sentimentos é basicamente a mesma da criança de dois anos que acha que é o rei da família e do mundo, com poderes ilimitados.
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Assim como a realidade invade a fantasia de onipotência da criança de dois anos, invade a unidade fantástica do casal apaixonado. Mais cedo ou mais tarde, como uma reação aos problemas do dia-a-dia, o indivíduo se reafirmará. Ele quer fazer sexo; ela não. Ela quer ir ao cinema; ele não. Ele quer depositar dinheiro no banco; ela quer uma lava-louças. Ela quer falar sobre seu trabalho; ele quer falar sobre o dele. Ela não gosta dos amigos dele; ele não gosta dos amigos dela. Então os dois, no fundo de seus corações, chegam à terrível conclusão de que eles e a pessoa amada não são um só, que ela – ou ele – ainda continuará a ter seus próprios desejos, gostos, preconceitos e momentos diferentes dos seus. Uma a uma, gradual ou subitamente, as fronteiras do ego são restabelecidas – e eles se desapaixonam. Mais uma vez são dois indivíduos separados. E nesse ponto que eles começam a romper os laços do relacionamento ou dão início ao trabalho que constrói o verdadeiro amor.
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Ao usar a palavra “verdadeiro”, quero dizer que, quando estamos apaixonados, a percepção de que estamos amando é falsa. Nossa sensação subjetiva de amar é uma ilusão. A elaboração plena do verdadeiro amor será deixada para o final desta parte. Contudo, ao afirmar que quando um casal se desapaixona pode realmente começar a amar, também quero dizer que o verdadeiro amor não se origina de uma sensação de amor. Pelo contrário, freqüentemente ocorre em um contexto em que esta sensação está ausente, quando agimos amorosamente apesar de não nos sentirmos amorosos. Se aceitamos a nossa definição inicial do amor, a experiência de “apaixonar-se” não é – pelas várias razões que veremos a seguir – o verdadeiro amor.
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Apaixonar-se não é um ato da vontade. Não é uma escolha consciente. Por mais que estejamos abertos ou dispostos, a experiência da paixão ainda pode nos escapar. Por outro lado, podemos passar por ela quando definitivamente não a procuramos, quando é inconveniente e indesejável. Temos a mesma tendência a nos apaixonar por uma pessoa obviamente incompatível quanto por uma absolutamente apropriada. De fato, podemos até mesmo não apreciar ou admirar o objeto da nossa paixão e, por mais que tentemos, não sermos capazes de nos apaixonar por alguém que respeitamos muito e com quem seria desejável ter um relacionamento profundo. Isso não quer dizer que a experiência da paixão seja imune à disciplina. Os psiquiatras, por exemplo, freqüentemente se apaixonam por seus pacientes, assim como seus pacientes costumam se apaixonar por eles, mas devido ao seu papel e dever profissional geralmente são capazes de evitar o colapso de suas fronteiras egóicas e de desistir do paciente como objeto romântico. A luta e o sofrimento da disciplina envolvida podem ser enormes. Mas a disciplina e a vontade só podem controlar a experiência; não podem criá-la. Podemos escolher como vamos reagir à experiência da paixão, mas não a experiência em si.
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Apaixonar-se não é uma ampliação dos limites ou fronteiras do indivíduo; é seu colapso parcial e temporário. A ampliação dos nossos limites exige esforço; a paixão não. Pessoas preguiçosas e indisciplinadas tendem tanto a se apaixonar quanto as dedicadas e cheias de energia. Depois que o precioso momento da paixão passa e as fronteiras são restabelecidas, o indivíduo pode ficar desiludido, mas geralmente não cresce com a experiência. Já quando os limites são ampliados ou expandidos, eles tendem a permanecer assim. O verdadeiro amor é uma experiência de expansão permanente; a paixão não.
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O objetivo da paixão não é estimular o crescimento espiritual. Se temos um objetivo em mente quando nos apaixonamos, é o de pôr fim à nossa solidão, e talvez garantir isso com o casamento. Certamente não temos em mente a evolução espiritual. De fato, depois que nos apaixonamos, e antes de nos desapaixonarmos, achamos que chegamos ao ápice e que não há necessidade e possibilidade de ir além. Não sentimos que precisamos de desenvolvimento. Estamos totalmente satisfeitos com o lugar que alcançamos. O nosso espírito está em paz. Tampouco achamos que a pessoa amada precisa de crescimento espiritual. Ao contrário, nós a achamos perfeita, como se tivesse sido aprimorada. Se vemos nela qualquer falha, esta é descartada como insignificante ou como uma excentricidade que só aumenta o seu charme…
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Trecho retirado do livro “A trilha menos percorrida” de M. Scott Peck

Amor Líquido 4

Para resumir uma longa história: as cidades se tornaram depósitos de lixo para problemas gerados globalmente. Os moradores das cidades e seus representantes eleitos tendem a ser confrontados com uma tarefa que nem por exagero de imaginação seriam capazes de cumprir: a de encontrar soluções locais para contradições globais.
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Daí o paradoxo, observado por Castells, de “políticas cada vez mais locais num mundo estruturado por processos cada vez mais globais” : “Houve uma produção de significado e de identidade: meu bairro, minha comunidade, minha cidade, minha escola, minha árvore, meu rio, minha praia, minha capela, minha paz, meu meio ambiente.” “Indefesas diante do furacão global, as pessoas se agarraram a si mesmas.”" Observe-se que, quanto mais estiverem “agarradas a si mesmas”, mais indefesas tenderão a ficar “diante do furacão global”, assim como mais desamparadas ao determinarem os significados e identidades locais, e portanto ostensivamente seus – para grande alegria dos operadores globais, que não têm motivos para temer os indefesos.
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Como Castells insinua em outro texto, a criação do “espaço dos fluxos” estabelece uma nova hierarquia (global) de dominação mediante a ameaça de desengajamento. O “espaço dos fluxos” pode “escapar ao controle de qualquer localidade”, enquanto (e porque!) “o espaço dos lugares é fragmentado, localizado, e portanto crescentemente destituído de poder diante da versatilidade do espaço dos fluxos. A única chance de resistência das localidades consiste em recusar direitos de propriedade a esses fluxos esmagadores – apenas para vê-los atracar na localidade vizinha, provocando o desvio e a marginalização de comunidades rebeldes”".
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A política local – e em particular a política urbana – tornou-se desesperadamente sobrecarregada, muito além de sua capacidade de carga/desempenho. Agora espera-se que alivie as conseqüências da globalização descontrolada usando meios e recursos que essa mesmíssima globalização tornou lamentavelmente inadequados.
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman
Veja também Amor Líquido 1 , 2 , 3 , 4
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Veja também no mesmo tema “Tropa de Elite”

Chomsky

Dele, o jornal inglês The Guardian escreveu: “Noam Chomsky está ao lado de Marx, Shakespeare e a Bíblia como uma das dez mais citadas fontes nas ciências humanas – e é o único autor, entre eles, ainda vivo.” O New York Times, com quem trava batalhas há décadas, chamou-o “o mais importante intelectual vivo.” Mas Noam Avram Chomsky dificilmente é uma unanimidade. Nem quer ser: a polêmica parece parte essencial desse lingüista que abraçou o pensamento político e insistiu em teses tão provocativas como a defesa do regime sanguinário de Pol Pot na Camboja e a afirmativa de que os mortos do World Trade Center foram poucos em comparação com os provocados por governos americanos no Terceiro Mundo.

Chomsky nasceu na Filadélfia em 7 de dezembro de 1928. Na Universidade da Pensilvânia estudou lingüística, matemática e filosofia. Desde 1955, é professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ocupando uma cátedra de Língua Moderna e Lingüística. Casou-se com Carol Schatz, professora da Universidade de Harvard, em 1949, e tem dois filhos.

Fez sua reputação inicial na lingüística, tendo aprendido alguns dos seus princípios históricos com o pai, um erudito do hebraico. Seus trabalhos na gramática generativa, que derivaram do seu interesse pela lógica moderna e pelos fundamentos da matemática, deram-lhe fama.

Sempre se interessou pela política e suas tendências para o socialismo são resultado do que chama de “a comunidade judaica radical de Nova York”. Desde 1965, tornou-se um dos principais críticos da política externa latino-americana. Seu livro O poder americano e os novos mandarins foi considerado um dos ataques mais substanciais ao envolvimento americano no Vietnã.

Hoje, Chomsky é a voz mais respeitada da esquerda acadêmica e intelectual. Mesmo sendo um radical nada convencional. Produziu um substancial volume de teoria política própria e defende a busca da verdade e do conhecimento nos negócios humanos de acordo com um conjunto simples e universal de princípios morais. Escreve de jeito claro, fala com o público especializado e com o leitor em geral. Pode-se dizer que é um herdeiro da Nova Esquerda dos anos 1960. No seu livro mais famoso da época, O poder americano e os novos mandarins, ele disse que os Estados Unidos precisavam de “uma espécie de desnazificação”, insinuando que o país estava caindo no fascismo.

Fonte: Revista Cult
Mais ?? Chomsky no Orkut

Bono falando sobre…

Veja a entrevista inteira aqui com Bill Hybels…
” A dualidade é a marca de muita arte de alto nível, e é algo que falta muito na arte cristã” 17:33
“Este lance de fama é ridículo, mas é uma moeda” 28:58
“Deus me fez um oportunista” 30:45
“A igreja sempre esteve atrás históricamente, nos direitos civis, na luta contra o racismo, no apartheid” 33:04

“Eu nunca tive problemas com Cristo, mas os cristãos sempre me deram dor de cabeça…”

“Ou Jesus era louco ou ele era quem ele disse que era”

Amor Líquido 3

Os jovens que estão nascendo, crescendo e amadurecendo nesta virada do século xx para o XXI também achariam familiar, talvez até auto-evidente, a descrição de Anthony Giddens do “relacionamento puro”.
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O “relacionamento puro” tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação”:
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O atual “relacionamento puro”, na descrição de Giddens, não é, como o casamento um dia foi, uma “condição natural” cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou menos ao bel prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida, é necessária a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.
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O compromisso com outra pessoa ou com outras pessoas, em particular o compromisso incondicional e certamente aquele do tipo “até que a morte nos separe”, na alegria e na tristeza, na riqueza ou na pobreza, parece cada vez mais uma armadilha que se deve evitar a todo custo.
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Sobre as coisas que aprovam, os jovens de língua inglesa dizem “cool”. Uma palavra adequada: independentemente das outras características que os atos e interações humanos possam ter, não se deve admitir que a interação esquente e particularmente que permaneça quente: é boa enquanto continua cool, e ser cool significa que é boa. Se você sabe que seu parceiro pode preferir abandonar o barco a qualquer momento, com ou sem a sua concordância (tão logo ache que você perdeu seu potencial como fonte de deleite, conservando poucas promessas de novas alegrias, ou apenas porque a grama do vizinho parece mais verde), investir seus sentimentos no relacionamento atual é sempre um passo arriscado. Investir fortes sentimentos na parceria e fazer um voto de fidelidade significa aceitar um risco enorme: isso o torna dependente de seu parceiro (embora devamos observar que essa dependência, que agora está se tornando rapidamente um termo pejorativo, é aquilo em que consiste a responsabilidade moral pelo Outro – tanto para Logstrup quanto para Levinas).
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Para esfregar sal na ferida, a dependência – devido à “pureza de seu relacionamento – não pode nem precisa ser recíproca. Assim, você está amarrado, mas seu parceiro continua livre para ir e vir, e nenhum tipo de vínculo que possa manter você no lugar é suficiente para assegurar que ele não o faça. O conhecimento amplamente compartilhado – na verdade, um lugar-comum – de que todos os relacionamentos são “puros” (ou seja, frágeis, fissíparos, tendentes a não durar mais do que a conveniência que trazem, e portanto sempre “até segunda ordem”) dificilmente seria um solo em que a confiança pudesse fincar raízes e florescer.
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Parcerias trouxas e eminentemente revogáveis substituíram o modelo da união pessoal “até que a morte nos separe” que ainda se mantinha (mesmo que mostrando um número crescente de fissuras desconcertantes) na época em que Logstrup registrou sua crença na “naturalidade” e “normalidade” da confiança e anunciou seu veredicto de que era a suspensão ou supressão da confiança, e não o seu dom incondicional e espontâneo, que constituía uma exceção causada por circunstâncias extraordinárias que, portanto, exigiam uma explicação.
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A fraqueza, a debilidade e a vulnerabilidade das parcerias pessoais não são, contudo, as únicas características do atual ambiente de vida a solaparem a credibilidade das hipóteses de Logstrup. Uma inédita fluidez, fragilidade e transitoriedade em construção (a famosa “flexibilidade”) marcam todas as espécies de vínculos sociais que, uma década atrás, combinaram-se para constituir um arcabouço duradouro e fidedigno dentro do qual se pôde tecer com segurança uma rede de interações humanas. Elas afetam particularmente, e talvez de modo mais seminal, o emprego e as relações profissionais.
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Com o desaparecimento da demanda por certas habilidades num tempo menor do que o necessário para adquiri-las e dominá-las; com credenciais educacionais perdendo valor em relação ao custo anual de sua aquisição ou mesmo transformando-se em “eqüidade negativa” muito antes de sua “data de vencimento” supostamente vitalícia; com empregos desaparecendo sem aviso, ou quase; e com o curso da existência fatiado numa série de projetos singulares cada vez menores, as perspectivas de vida crescentemente se parecem com as convoluções aleatórias de projéteis inteligentes em busca de alvos esquivos, efêmeros e móveis, e não com a trajetória pré-planejada, predeterminada e previsível de um míssil balístico.
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Retirado do livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman
Veja também Amor Líquido 1 , 2 , 3 , 4

A Regra do Amor

A regra para todos nós é perfeitamente simples. Não fique aí perdendo o seu tempo para pensar se “ama” ou não o seu próximo; aja como se você já o amasse. Pois, assim que fazemos isso, acabamos descobrindo um dos maiores segredos da vida. Quando você age como se amasse alguém, acaba por amá-lo de verdade. Se você ofende alguém de quem não gosta, acaba gostando dele muito menos ainda. Se você lhe der uma boa resposta, vai desgostar menos dele. É claro que existe uma exceção a essa regra. Se você lhe der uma resposta gentil, não para agradar a Deus e obedecer à regra da caridade, mas para lhe provar que é um cara legal e capaz de perdoar, colocando-o em dívida com você, e depois sentar-se e esperar que ele demonstre sua “gratidão”, provavelmente acabará ficando desapontado. (As pessoas não sob bobas; elas detestam qualquer tipo de exibição ou tentativa de autopromoção.) Mas sempre que fazemos o bem a outro ser humano só porque se trata de outro ser humano criado por Deus (como nós mesmos), desejando a felicidade dele da mesma forma que desejamos a nossa, é provável que tenhamos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, pelo menos, a desgostar dele um pouco menos.
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C.S. LEWIS no livro “Cristianismo Puro e Simples” o mesmo autor do livro transformado em filme “As Crónicas de Narnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”